31 de outubro de 2020
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Mãe de vítima de violência sexual diz que filha não olha mais nem para a rua da escolinha

A mãe de criança vítima de violência sexual em uma escolinha particular no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, conta, em relato exclusivo à Folha de Pernambuco, sobre o drama que tem vivido ao lado da filha de cinco anos. Ela falou que a dona da escola, esposa do homem apontado como autor dos oito estupros, sabia das agressões. Foi a partir da denúncia feita pelos pais dessa criança que os casos começaram a vir à tona. Todos estão sendo acompanhados pelo Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente (DPCA).

Ao todo, seis meninas e dois meninos, com idades entre três e cinco anos, foram vítimas das agressões. Elas foram encaminhadas ao Instituto de Medicina Legal (IML), onde foram constatadas lesões em duas delas. A partir dos resultados e dos relatos das crianças, comprovou-se que, apesar de não ter ocorrido penetração e rompimento de hímen, houve a prática de atos como beijos forçados e toques nas regiões genitais, o que já é considerado estupro pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A identidade das vítimas, familiares, e os endereços, serão preservados para que as crianças não sejam identificadas.

Como vocês descobriram as agressões?

Antes de sair de férias, minha filha falava sempre que não queria ir para a escola. Nós pensávamos que era manha, por ela ser a nossa mais nova e o pai ser bem grudado nela. Até que no sábado anterior à volta às aulas ela foi passar o final de semana com a avó. Lá, ela viu a avó arrumando as coisas dela para estudar e ela perguntou se teria que voltar para a escolinha. No que a avó confirmou, ela começou a explicar porque não queria voltar e relatou tudo o que ele fazia com ela.

O que ela relatou?

Ela disse que era levada para uma sala no primeiro andar, que tinha um tapete, uma TV e uma cama. Pelo que entendemos, era algo frequente, quase todo dia. Disse que lá, ele pedia para ver a calcinha dela. Ele também a colocava no colo e ficava baixando o short dela. Já na primeira vez em que isso aconteceu, ela disse que avisou a dona da escolinha e ela disse: ‘vou resolver’. A última vez, que foi antes das férias, ela disse que ele a colocou no colo com muita força e machucou, aí ela começou a chorar. A mulher dele foi lá, pegou ela e a levou de volta para a escolinha.

Como foi lidar com tudo isso?

Eu entrei em estado de choque, desmaiei, fiquei perdida. Meu marido se manteve firme e começou a agir. No sábado mesmo, minha mãe foi lá e começou a gritar, chamar ele de tarado. No outro dia eu e meu marido fomos lá, mas ele já tinha fugido. Só estava a esposa, que passou todos os dados dele para a gente entrar em contato com a polícia, mas pediu que a gente não falasse o nome da escola. No mesmo dia ele nos ligou, disse que queria se explicar antes de a gente denunciá-lo. Primeiro, ele disse que não fez nada disso. Depois, disse que a levou para essa sala porque ela estava doente, para cuidar dela. Eu confiava demais neles, nossas famílias têm certa proximidade. O irmão dela veio aqui e disse que eles tinham se separado por esse motivo. Eles moravam em outro local, perto daqui. Mas ela se mudou sozinha para cá e abriu a escola, há pouco mais de um ano. O irmão explicou que ela tinha mudado de endereço porque onde eles moravam antes tinha acontecido a mesma história e eles tiveram que sair. Depois de um tempo, ela o perdoou e eles voltaram a morar juntos.

Como tem sido desde então?

Muito difícil, mas temos conseguido. Meu marido, depois que deu andamento a tudo, desabou. Sofreu demais. No começo, a menina não dormia bem. Acordava muito de madrugada perguntando se ‘o homem ira pegar ela e sumir, que nem a polícia vai achar’. Nós achamos que ele usava isso para ameaçá-la, caso contasse algo. Por isso que ela não falou antes. Hoje ela estuda no mesmo local onde eu trabalho, para se sentir mais protegida. Já voltou a dormir bem, mas na rua não solta da minha mão e não olha para a rua onde está a escolinha. Também não sai mais pra brincar, só se eu estiver presente.

O que a polícia disse?

Disseram que agora estão procurando ele. Ela recebe apoio psicológico. A psicóloga disse que foi importante a minha filha ter falado, porque ela era a única capaz, por ser mais velha. As outras crianças eram mais novas e, por isso, foi até mais grave o que ele fez com essas outras crianças, porque elas não tinham como falar. São muito novinhas.

E o que vocês esperam daqui para frente?

Eu quero demais que ele seja preso, para que isso não aconteça com mais ninguém. E ela também, porque era conivente. Ela sabia e não denunciou. Essa história não pode ser mais uma esquecida, como a do outro local onde eles viviam. Às vezes eu paro e fico me perguntando como foi que isso tudo aconteceu. Como foi que vivemos isso? Eu não quero que mais ninguém passe pelo que estamos passando.
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