22 de setembro de 2020
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Corta um quilo pra mim! – Por Adelson Santana

Certa vez, tive a grata satisfação de caminhar com o poeta português Luís Serguilha pela feira-livre da cidade por entre os bancos dos esquartejados cadáveres à venda. Algo que lhe chamou a atenção. Pediu-me ele diligentemente que o fotografasse ao lado dos pedaços de carne dependurados na madeira oferecidos pelos comerciantes (machantes na linguagem coloquial) sem entender o que se sucedia. Tive a curiosidade de indagá-lo sobre o seu espanto diante da tão comumente aceita maneira de comercialização de víveres no mundo pedras-foguense.

Na imagem fotográfica talvez tenha sido capturado o cão que intentava escapar dos outros que lhe tentavam roubar o osso ensanguentado conquistado há pouco no higiênico ambiente.

Apesar da previsibilidade da óbvia resposta, o poeta aproveitou para fazer uma breve verborragia poético-filosófica, que não me recordo de tudo, para exclamar o quanto o nosso costume era estranhamente inacreditável, visto que tal modo de comércio ao ar livre e em tão precárias condições sanitárias já havia sido extinto há séculos na terrinha e no velho continente.

Poeta Português Luís Serguilha. Feira livre de Pedras de Fogo, ano 2013. Imagens: (Adelson Santana)

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Talvez nas origens incertas de 500 a. C. nalgumas civilizações antigas: fenícia, grega, romana, árabe etc. ou, na Idade Média, conforme nos conta a história, aproveitando o fluxo de pessoas próximo às igrejas nos burgos feudais aos domingos (dia do senhor) para vender o excedente da produção. A propósito o termo “feira”, “feriado”, “férias” etc. derivam do latim “feria” que significa dia santo, dia de descanso. Hora de matar bicho, estripá-lo na porta da casa do senhor e vendê-los aos pedaços depois da missa matutina: eis os originários medievais das feiras-livres tão importantes até os nossos dias.

Vale salientar que feira para nós soa como algo sagrado, pois a própria Pedras de Fogo (da gêmea Itambé) originou-se de uma feira-livre e, por ironia, de gado.  Vivo, mas não sem deixar correlação com incômodo do poeta.

Numa anuência frustrada percebi há pouco a ausência dalguns bancos de carne na feira que nos transportava para séculos atrás. Pensei que se tratava de uma iniciativa assertiva em benefício da comunidade. Com a devida preparação e respeito aos comerciantes, tinha sido encontrada uma maneira melhor para a venda de carne em atendimento à legislação pertinente com os devidos cuidados sanitários.

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Ledo engano. De forma unilateral e sem diálogo algum com os machantes, a prefeitura resolve imperativamente coibir o comércio de carne nos bancos de feira, transferindo-o para a parte interna do mercado público sem explicação prévia alguma. As reclamações dos comerciantes foram grandes e compreensíveis.

Qual a diferença em comercializar em cima dos bancos de madeira ou em cima do cimento das guaritas do mercado se nos dois casos não há o atendimento aos preceitos mínimos necessários para o comércio de carne que é prioritariamente o acondicionamento refrigerado?

Ora, se não tinha algo a fazer de construtivo e proveitoso, não se justifica essa tentativa tacanha de paliativo com o objetivo apenas de por em uso o mercado para mostrar suposto serviço. Talvez apareça matéria panfletária mostrando a adesão de sorridentes comerciantes e as instalações em pleno e satisfatório funcionamento para enaltecer a sensibilidade do gestor com os cidadãos. Tem cabimento?

Entendo que tudo que envolver mudança nas feiras-livres tem que ser exaustivamente pensado. Os comerciantes das feiras são trabalhadores que precisam ganhar o pão e que passam anos a fio em seu ponto para fazer sua freguesia. Mudança na feira para eles significar menos venda e, consequentemente, menos comida no prato. Toda e qualquer gestão que prime pela livre iniciativa e pelo respeito ao trabalho deve, principalmente quando se tratar de ambulantes e feirantes, priorizar o diálogo sempre. Nas alterações deve ser considerada a opinião desses sofridos trabalhadores que são diretamente afetados. Fazer de forma atabalhoada denota irresponsabilidade, incompetência ou, na pior hipótese, desrespeito.

Fizeram uma pseudorreforma no mercado que perdurou por quase quatro anos desalojando os comerciantes e gastando mais de R$ 250.000,00 dos cofres públicos para pintar as paredes e forrar o teto, sem nenhuma mudança significativa que justificasse, a nosso ver, o gasto de tão vultosa quantia: sem instalações necessárias para garantir as condições sanitárias mínimas conforme as portarias da ANVISA e do Ministério da Saúde para a comercialização de produtos alimentícios perecíveis.

Que tal pensar em uma mudança maior, mais eficaz e mais proveitosa para os comerciantes e para a população em geral? Algo planejado com esmero, dedicação e espírito público. Pedra de Fogo há tempos precisa de um Centro de Distribuição de Alimentos, com pátio amplo e espaçoso para a instalação de uma feira-livre diária com estrutura sanitária adequada para a comercialização de produtos de origem animal, como é o caso da carne. Deve-se pensar nos comerciantes como agentes de desenvolvimento e progresso da cidade, fomentando auxílio técnico e/ou financeiro que os beneficiem. Tudo isso construído em três inequívocas vertentes: envolvimento da população através de programas de informação e divulgação, condicionamento dos comerciantes como beneficiários e parceiros do projeto e posicionamento da gestão como indutora de crescimento de forma harmoniosa como preceito, deixando a imperatividade do poder público em segunda instância.

Sinceramente? Não sou contra as mudanças desde que sejam sérias e devidamente planejadas. Confesso que sonho um dia com um comércio pungente em uma feira-livre diária com feirantes felizes por poder vender todo dia em instalações condizentes e com a população satisfeita por encontrar seus produtos fresquinhos todas as manhãs em um local bem estruturado e adequado para tanto. E o passeio público livre como patrimônio da cidade. Tudo isso pensado com carinho, informação à população, transferência dos comerciantes sem traumas, de forma gradual e lenta para garantir também a transferência da freguesia. Enfim, com ganho para todos.

Todavia sei que isso custa caro e não pode ser feito num estalar de dedos. É preciso gana, perspicácia e vontade política da gestão para iniciar o embrião do futuro. Coisa que diante da forma visivelmente atropelada que ora acontecem as coisas, lamentavelmente, não se vislumbra algo parecido no horizonte.

Mesmo assim, Já que não conseguem fazer tanto, apela-se que o mínimo seja feito com respeito aos envolvidos… À população.

No mais, corta um quilo pra mim pra eu guisar e comer com cuscuz. Pode ser de um banco de feira ou de qualquer guarita do mercado mesmo, não importa! O poeta já voltou pra Portugal.

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Imagens: PBPE

Adelson Santana 

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